Percorrer Lisboa é sempre um "gozo" para mim. Vir à cidade, deixar o carro no estacionamento e andar por essas ruas esquecidas pelo tempo. Há quanto tempo eu não vinha às avenidas novas com algum tempo para passear. Quase sempre era atravessá-las de carro, sem olhar para os lados, porque o trânsito assim o abriga. Desta vez, porém, pude dispor de algum tempo, entre a chegada e a entrada para a consulta médica. Arrumei o carro no parqueamento do antigo Monumental, agora um centro de negócios e comercial também. Do velho teatro e cinema nada resta, deram uma facada na cultura deste país e em vez da Laura Alves e do Vasco Morgado deram-nos um edifício de escritórios e lojinhas de pronto a comer. Espreitei o Saldanha, desci a Av. da República, entrei na Versailhes, dei de caras com o Galetto, desviei-me para a João Crisóstomo, percorri a Duque de Ávila com os seus novos passeios e esplanadas que vão até ao Arco Cego e voltei para a consulta. Lisboa continua a ter encanto e apetece de vez em quando calcorrear as suas ruas pelo empedrado da calçada portuguesa.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
REVISITAR LISBOA
Ir a Lisboa como eu vou, pontualmente todas as semanas, fazer a minha visita aos "petrogalenses" ou "Galpianos", como se queira chamar, não é ir propriamente a Lisboa. Descer a 2ª circular, voltar ali junto às torres de Lisboa, são cinco minutos apenas, e claro não estou na Lisboa profunda. Mas se arrumar o carro junto à loja do cidadão, caminhar até às Laranjeiras e apanhar o Metro já começa a fazer sentido. Sair na estação do Parque, reler as citações das ilustres personagem que estão inscritas na azulejaria dos corredores que nos levam da profunda escadaria até à António Augusto de Aguiar é um "dejá vu" de tantos anos de Metropolitano. A rua Filipe Folque, palco das minhas andanças está mais morta, não há Petrogal, não há Tribunal, os edifícios estão marcados pelas ausências e pelos riscadores de paredes. Fechou o restaurante Tório do meu amigo Jorge, ali na Tomás Ribeiro, o centro comercial City está moribundo, outras casas comerciais fecharam, em compensação outro centro abriu, mas as lojas exceptuando as de comedorias, estão fechadas. Mais à frente o centro comercial Imaviz sofre do mesmo mal, está deserto, uma tasquita ou outra aberta e o resto morreu. Imponente como sempre está o Sheraton, no alto dos seus vinte e tantos andares, se cheio ou vazio não sei, está apenas "solteiro" à espera que dos terrenos anexos nasce um outro companheiro tão ou mais magestoso que ele. Veremos. Lisboa, como de resto quase todo o país está assim:
de crise vestida e com um sorriso nos lábios.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
FÉRIAS
Faltam apenas 4 dias para pegar no meu mégane e fazer a já muito desejada viagem de férias para Vilamoura. Algarve tem sido desde há muito o meu destino de férias. Salvo algumas excepções para lá caminho desde 1970. Albufeira, Quqrteira, Armação de Pêra, Manta Rôta e Vilamoura, foram nestes anos os meus locais de veraneio. Esta é a viagem que todos os anos se repete e sempre sempre com uma pequena história pelo caminho.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
A ETERNA LISBOA
De quando em vez sabe bem ir a Lisboa pela manhã. Sair de casa sem ser na hora de ponta, apanhar o combóio aí pelas dez e tal, chegar ao Rossio depois de uma viagem curta pela paisagem grafitada por meia dúzia de energúmenos. A praça do Rossio cheira a Lisboa, ali, o corropio de pessoas é constante, as esplanadas estão cheias de turistas, a Suíça fervilha de um lado e do outro o Nicola pede meças. A rua Augusta e a rua do Ouro movimentam-se mais que que a rua da Prata, mais mortiça, com as suas lojas vazias e os empregados à porta esperando os clientes em vão. Da praça da Figueira até à rua do Arsenal são mais as lojas que estão fechadas que as abertas, o eléctrico bem tenta animar a rua com o tilintar das suas campaínhas mas o "Zé" não tem moeda para fazer tilintar os balcões das lojas escuras e ultrapassadas da zona. A rua Augusta, cheia de movimento, desemboca pelo arco no Terreiro do Paço, a vista alarga-se ao Tejo, mais além à outra margem, os turistas "cheiram" o rio e perdem o olhar pela serra que ao longe se avista. Agora, de um lado e outro da praça, os restaurantes e esplanadas marcam presença, o terreiro tem mais vida e sobretudo Fernando Pessoa no seu Martinho da Arcada não está sozinho.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
MEMÓRIAS
Ainda tenho presente as reportagens da
nossa televisão quando chegavam aos cais de Lisboa os paquetes vindos
do Ultramar, carregados de soldados; ainda tenho presente quando ao
vivo, descendo as escadas do velho navio "Império" vi as cenas do
desembarque; ainda tenho presente as críticas que os senhores de hoje,
opositores da altura, faziam a estas situações; ainda tenho presente,
após o 25 de Abril, o "nem mais um soldado para o ultramar". Quantos de
nós fizeram três, quatro ou mais anos de guerra e chegaram (os que
chegaram) a um cais vestido só de povo, sem uma única autoridade a dar
as boas vindas. Hoje, com surpresa minha, vejo militares a partir para
terras (que não as nossas) fazer uma comissão de seis meses(!!), e
regressar com as mesmas cenas, agora com grandes reportagens de
televisões e generais à espera. Só não vejo as tais vozes que gritavam
"nem mais um soldado para o Ultramar", só não vejo os tais politicotes a
criticar esta situação. A memória é curta...
segunda-feira, 23 de julho de 2012
A GUERRA
A guerra está outra vez no topo das nossas actualidades, não a guerra, pão nosso de cada dia nesse além-mar tão distante e tão perto afinal, mas a "nossa guerra", colonial, do ultramar ou como quizerem chamar. A tantos anos de distância não se vislumbra um bisturi que consiga dissecar os nossos silêncios. Fomos tantos os navegadores, somos tão poucos os que erguem, neste mar de novos adamastores, um livro, uma história, um poema. Também fui navegador, zarpei do Tejo até Angola e voltei. E sou dos que erguem, neste mar esquecido, as palavras escritas no livro"Éramos Todos Bons Rapazes" da Editora Indícios de Oiro, como testemunho duma geração. Deixo-vos um pequeno extracto duma história do livro. Eu fui à guerra e voltei mas...
..."eram quatro os meninos que da fonte nova bebiam. Eram quatro os meninos que noutras paragens desembarcaram. Eram quatro os meninos que queriam voltar à fonte nova, para beber aquela água outra vez. À fonte nova, vindos do mar, apenas chegaram três."
A guerra está outra vez no topo das nossas actualidades, não a guerra, pão nosso de cada dia nesse além-mar tão distante e tão perto afinal, mas a "nossa guerra", colonial, do ultramar ou como quizerem chamar. A tantos anos de distância não se vislumbra um bisturi que consiga dissecar os nossos silêncios. Fomos tantos os navegadores, somos tão poucos os que erguem, neste mar de novos adamastores, um livro, uma história, um poema. Também fui navegador, zarpei do Tejo até Angola e voltei. E sou dos que erguem, neste mar esquecido, as palavras escritas no livro"Éramos Todos Bons Rapazes" da Editora Indícios de Oiro, como testemunho duma geração. Deixo-vos um pequeno extracto duma história do livro. Eu fui à guerra e voltei mas...
..."eram quatro os meninos que da fonte nova bebiam. Eram quatro os meninos que noutras paragens desembarcaram. Eram quatro os meninos que queriam voltar à fonte nova, para beber aquela água outra vez. À fonte nova, vindos do mar, apenas chegaram três."
domingo, 24 de junho de 2012
RELEMBRAR FÉRIAS EM MADRID

MADRID
Madrid,
nove da manhã, hora local. Desembarcamos em Barajas depois de uma
viagem calma de uma hora apenas. Como eu gosto. A procura das malas é um
desespero, pela grandeza destes aeroportos, onde as distâncias a
percorrer são sempre enormes. Espero que o nosso "Jamais" esteja um
pouquinho mais organizado. Depois, a procura do metro e a viagem até à
estação de Sevilla, na linha vermelha, depois de mudarmos em Colombia
para a linha roxa e depois em Príncipe de Vergara para a linha vermelha.
E eis Madrid, centro, rumo à gran via e ao hotel N10 Villa la Reina. Um
hotel simpático de quatro estrelas, e duas espanholas atenciosas num
check in rápido. Foi só um tempo para poisar as malas e partir à
descoberta duma cidade desconhecida. Sexta-Feira, manhã cinzenta, uma
multidão percorrendo as ruas, enchendo as lojas, os cafés, os bares, os
restaurantes. Turistas de câmaras de filmar, de máquinas fotográficas,
disparando foto atrás de foto. Um café e um cake num Starbruks de
esquina, refaz a energia e leva-nos a galgar a Gran via até à plaza de
España, percorrer a calle Baillén até ao Palácio real, tirar fotografias
no jardim sabatini, passar pela Catedral de Almudena, ir até à plaza
Mayor, ver as torres de los Luanes, correr a calle de Arenal e almoçar
na Puerta del sol. Depois, passar pela Igreja de St. Cruz e pelo Palácio
de St. cruz, ir até à calle de Alcalá, subindo até às puertas de
Alcalá, passando pelo Banco de España, entrando na Plaza Cibelles,
percorrendo o paseo de Ricoletos até à Plaza de Colon, vendo o Palácio
de Comunicaciones, o palácio de Linares, a Biblioteca Nacional e o Museo
Arquiológico. Depois de um sono de três horas apenas na noite
anterior, a chegada ao hotel deu apenas para um ligeiro jantar e...
cama. Acordar às oito, tomar o pequeno almoço e descer a gran via até à
calle Alcalá, entrar na Plaza Cibelles e descer o paseo del Prado até
ao Museo Thyssen. Ver Modigliani, encontrar aqui o português conhecido,
da praxe, descer o paseo até à estação de Atocha, tão célebre e
infelizmente conhecida, apanhar o metro até ao Campo de las Naciones e
entrar na Feira de Arte Contemporânea-Arco, motivo principal desta
visita. Três enormes pavilhões, centenas de galerias e dezenas de países
representados numa mostra da arte que hoje se faz por esse mundo fora.
Uma tarde inteira, num passo acelerado, para poder absorver toda essa
substância artística. Milhares de pessoas, um almoço rápido, em pé,
frente a frente a uma americana, directora de uma revista de arte, a um
canto, junto de uma mesa sem cadeiras, num diálogo breve em espanhol e
inglês, mastigando um bocadillo e uma cola. Voltar ao hotel, descansar
um pouco e sair para uma volta pela noite, correndo à plaza Chueca,
descendo a calle Montera com as suas meninas de mini saia, calças justas
e preço na ponta da língua. Percorrer o Barrio dos Austrias, jantar por
ali junto à barra de um bar na plaza del Calao. Manhã de domingo,
cinzenta e mais fria, voltamos a descer Alcalá e o paseo del Prado,
visitamos a estação de Atocha e rumamos ao Museu Nacional Rainha Sofia.
Picasso está lá. Uma obra vastíssima que milhares de pessoas visitam. Em
volta do Museu a agitação é grande, as filas também. Voltamos ao Paseo
del Prado, subimos agora pelo lado contrário em direcção ao Prado. Hora e
meia na fila para entrar, uma tarde para ver os grandes mestres, um
almoço no museu e o resto do tempo para ir ao Barrio de Salamanca. O
tempo chegou ao fim. Afinal ficámos a conhecer tão pouco de Madrid.
Barajas está a quarenta minutos, o avião à espera e Lisboa a um passo.
Voltaremos.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
UMA MANHÃ EM LISBOA
Domingo, 21 de outubro de 2007. O tempo já não é o que era, está uma manhã de sol. Percorro o IC 19, volto para os cabos de Ávila, entro para Lisboa pelo alto do Restelo, ladeando Monsanto e Caselas, descendo a larga avenida até ao CCB. Sem trânsito, sem stress, arrumo o carro e caminho paralelo ao Mosteiro dos Jerónimos. Do outro lado o Centro Cultural de Belém e o monumento aos descobrimentos. Entre margens, um rio que desliza suavemente para o mar, canta os heróis navegadores. As Tágides, porventura sentadas nas fontes que povoam os jardins, contemplam o movimento de gentes que percorrem as ruas, na ânsia de beber o néctar de cultura que jorra do Mosteiro dos Jerónimos, do Centro Cultural de Belém, do Museu de Marinha, do Museu de Arqueologia, do Museu dos Coches. Mais adiante junto ao Palácio de Belém, a GNR faz o render da guarda. Tocam as fanfarras , desfilam os guardas e os cavalos, e o povo pára para ver a banda passar. Páro num quiosque e compro um jornal, entro nos pastéis de Belém, tomo um café e um doce, dou uma vista de olhos pelo periódico e vou andando até ao rio. Percorro o espelho de água, sinto o cheiro da maresia, vou pela relva onde os putos em longas correrias, desatinam numa bola. A banda da Guarda Nacional Républicana toca agora no relvado, os cavaleiros evoluem no recinto, desenhando espaços ao som da fanfarra. As esplanadas convidam ao espectáculo e à bebida, o sol continua nesta manhã de Outubro a querer ficar, juntando-se à festa. Retomo o meu caminho até ao CCB, são horas de almoço, a esplanada do terraço da cafetaria é um pretexto para a refeição, o sol, o rio e a paisagem são o complemento duma breve pausa. Lisboa tem sempre estas manhãs, as gentes é que nem sempre se atrevem as disfrutar da magia deste espaço.
Domingo, 21 de outubro de 2007. O tempo já não é o que era, está uma manhã de sol. Percorro o IC 19, volto para os cabos de Ávila, entro para Lisboa pelo alto do Restelo, ladeando Monsanto e Caselas, descendo a larga avenida até ao CCB. Sem trânsito, sem stress, arrumo o carro e caminho paralelo ao Mosteiro dos Jerónimos. Do outro lado o Centro Cultural de Belém e o monumento aos descobrimentos. Entre margens, um rio que desliza suavemente para o mar, canta os heróis navegadores. As Tágides, porventura sentadas nas fontes que povoam os jardins, contemplam o movimento de gentes que percorrem as ruas, na ânsia de beber o néctar de cultura que jorra do Mosteiro dos Jerónimos, do Centro Cultural de Belém, do Museu de Marinha, do Museu de Arqueologia, do Museu dos Coches. Mais adiante junto ao Palácio de Belém, a GNR faz o render da guarda. Tocam as fanfarras , desfilam os guardas e os cavalos, e o povo pára para ver a banda passar. Páro num quiosque e compro um jornal, entro nos pastéis de Belém, tomo um café e um doce, dou uma vista de olhos pelo periódico e vou andando até ao rio. Percorro o espelho de água, sinto o cheiro da maresia, vou pela relva onde os putos em longas correrias, desatinam numa bola. A banda da Guarda Nacional Républicana toca agora no relvado, os cavaleiros evoluem no recinto, desenhando espaços ao som da fanfarra. As esplanadas convidam ao espectáculo e à bebida, o sol continua nesta manhã de Outubro a querer ficar, juntando-se à festa. Retomo o meu caminho até ao CCB, são horas de almoço, a esplanada do terraço da cafetaria é um pretexto para a refeição, o sol, o rio e a paisagem são o complemento duma breve pausa. Lisboa tem sempre estas manhãs, as gentes é que nem sempre se atrevem as disfrutar da magia deste espaço.
terça-feira, 19 de junho de 2012
PRAIA DAS MAÇÃS
Por uma razão ou outra, não tenho
feito os meus pequenos almoços no Centro Cultural de Belém, nas manhãs
de Sábados ou nas de Domingo. Contudo neste último Sábado preparava-me
para saborear as delícias da zona ribeirinha quando o telefone tocou e
surgiu o convite para um almoço algures. Coisa rara de um filho que há
muito abriu asas e voa sozinho embora ao fim do dia regresse ao ninho.
Sugeri que fôssemos à Praia das Maçãs, aproveitando o sol que se fazia
sentir, e poder desfrutar da maresia e das águas revoltas que a praia
sempre nos oferece. Ir até Sintra é um passeio que frequentemente se
faz, mas descer a serra por entre o arvoredo, no serpentear da estrada,
passar por Galamares, curvar para Coláres e seguir até à Praia das
Maçãs já não é um percurso assim tão habitual. A beleza do caminho, todo
ele pelas sombras das árvores seculares, ainda está presente em mim.
Hoje, como ontem, o velho eléctrico, vai marginal à estrada, percorrer o
mesmo trajecto até desembocar na praia. Espreito os dois lados da via, e
lá continuam os mesmos chalés, incrustados no pinhal que orla o
caminho, o velho hotel e a colónia de férias. Hoje, como ontem, desci à
praia, caminhei pelo passadiço de madeira que atravessa a praia e fui
até à base da pequena serra que se intromete entre a Praia das Maçãs e a
Praia Grande e que é berço daquele pequeno riacho que vem não sei
donde, marginado por canaviais e arvoredos e que foi rio da minha
infância. Parei ali, vergado ao peso das memórias, só eu sou o mesmo, as
águas que correm para o mar são outras, os ventos que me fustigam o
rosto são outros, as ondas que enrolam o meu olhar são também outras. No
Sábado renasci ali!
segunda-feira, 18 de junho de 2012
VIAGEM AO TEMPO PASSADO
Quando era miúdo adorava ir à Praia das Maçâs passar férias. Não era
apenas aquele riacho que serpenteava pelas areias formando pequenas
enseadas e desaguando depois no mar; nem o homem das bolas de Berlim,
gritadas areal fora; nem sequer o pinhal que fronteava a casa das
minhas tias, pleno de pinhões e camarinhas que faziam as nossas
delícias. Era sobretudo o quarto do meu primo Zeca, recheado de
surpresas, que ele, muito mais velho que eu, fazia saltar das gavetas.
Eram recordações da meninice dele, jogos, brinquedos, bonecos de todas
as cores e feitios, que ele me oferecia e eu delirava. Hoje, sou, não um
coleccionador, mas um juntador de coisas pensando que um dia mais
tarde, filhos ou netos, encontrem numa gaveta, numa caixa ou num canto
qualquer, alguma coisa que os encante. Com as obras que tenho feito em
casa, o espaço para as colecções não sobra, nem sequer para o amontoado
de coisas que vou juntando. Assim, tudo tem sido transferido para o
atelier de pintura, em caixas, em malas, em sacos. Por acaso hoje fui a
um desses sacos procurar um cabide e encontrei uma lata que em tempos
deve ter servido para acondicionar rebuçados e qual não foi o meu
espanto quando descobri que estava cheia de legos. Peças de várias
engenhocas, peças de um tempo que o João Pedro, meu filho,viveu quando
criança. Como me ia encontrar com a Matilde, minha neta, resolvi levar a
lata para lhe mostar. À noite, antes do jantar, despejei ao conteúdo da
lata no chão e foi com alguma emoção que vi o João e a Matilde a a
desbravar as peças e a tentar encaixá-las. Da cena, apenas duas notas
quero realçar, a primeira da Matilde, que virando-se para o tio lhe
pergunta «tio João ofereces-me os legos, está bem ?» e do João que
virando-se para mim, pediu «passa-me aí essa peça, que se bem me lembro
tem um perno partido» . Passaram-se mais de vinte anos, a peça continua
partida, o nosso imaginário continua vivo, a geração Matilde agradece.
As minhas caixas continuam no atelier, cheias de coisas velhas, que um
dia os filhos e netos desbravarão.
sábado, 9 de junho de 2012
A AUSÊNCIA
Esta minha ausência deve-se a uma pequena viagem que fiz da Amadora até Lisboa, para o Hospital Saint Louis onde fui sujeito a uma pequena intervenção cirúrgica. Esta hospital fica situado em pleno Bairro Alto, cujas ruas há muito eu não percorria. A viagem de táxi desde a estação do Rossio até à rua Luz Soriano foi rápida mas deu para relembrar os percursos que fiz durante tantos anos. O Bairro continua emblemático, as ruas continuam estreitas, mas as casas, antigas e deterioradas estão, como em quase toda a Lisboa marcadas pelos actos selvagens dos riscadores de paredes. Estou de volta, assim como gostaria que o Bairro estivesse também de volta a outros tempos.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
BAIRRO ALTO
Fui a Lisboa pela manhã, de combóio, porque a ida ao Bairro Alto é bem mais cómoda feita de transporte público do que levar a viatura e depois não ter lugar para estacionar. Continuo com esta imensa mágoa de ver toda a paisagem desde a Amadora até ao Rossio, desrespeitada por meia-dúzia de riscadores de paredes que em toda a extensão de muros e paredões inscrevem nomes, siglas e pseudo pinturas que nada tem a ver com os verdadeiros grafittis. A cidade está velha, as casas, velhas também, suportam o desvario desta "gente" que ao abrigo da noite desfiguram um bairro que tem o seu encanto. Percorri de táxi desde o Rossio até ao Saint Louis Hospital, passando pela av. da Liberdade, pela praça da Alegria, rua do Século e travessa dos Inglesinhos. À volta desci a pé a Rua Luz Soriano, até ao Camões e depois pela rua do Carmo fui apanhar o combóio à estação do Rossio. Está velha a cidade. E suja.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
LISBOA OCIDENTAL
Há dias resolvi, e porque tinha de resolver uns
quantos assuntos, ir a Lisboa pelo que apanhei o metro na Amadora Este
até ao Cais do Sodré. Ainda não percebi porque é que a nova extensão da
linha do metro vai à Reboleira, ao hospital de St.António, à porta da
Academia Militar e depois ao Hospital Amadora-Sintra sem passar
verdadeiramente pelo centro da cidade. Deve ser a única cidade do mundo
onde o metro não tem estação no centro. Mas enfim, estamos já habituados
a este tipo de actuações. A parte ribeirinha da cidade de Lisboa mete
pena, desde o Cais do Sodré à rua da Boavista, à rua de S.Paulo tudo é
triste, desarranjado, para não dizer porco. Fui pelo largo do Corpo
Santo, percorri a rua da Alfândega e o cenário é o mesmo. O Terreiro do
Paço está um nojo e percorrendo a baixa de lojas fechadas e as abertas,
vazias de público, as casas a cair, desabitadas. Um comércio precário,
um povo de passagem, uma cidade a morrer. Bem pregam estes politicotes
de ocasião, as virtudes do voto em si (neles). Os prédios vão ficando
velhos e vazios, as lojas sem clientes e antiquadas, as ruas
esburacadas, convivem naquele "cemitério" citadino até ao enterro final.
terça-feira, 8 de maio de 2012
DIA DA MÃE
Quiseram os filhos no Domingo homenagear as mães. Nada melhor que um almoço fora de portas para o evento. Estrada fora, pelas 12 horas rumámos pela IC 19 até Sintra. Até aqui o passeio tem tudo igual como noutros domingos, quando nos lembramos dos travesseiros do "Preto" ou da "Periquita". O diferente está a seguir quando chegamos a Sintra e começamos a descer para a Praia das maçãs, pela serpenteante estrada que irrompe da serra. Acompanha-nos na viagem, os carris de ferro, que de verão levam os eléctricos até à praia. A viagem até Almoçageme, onde é o almoço, homenageia a mãe, e ao mesmo tempo é uma viagem ao meu passado, porque muitas das minhas férias de verão foram passadas por aqui. Passar por Colares, chegar ao Banzão paredes meias com a praia, sentir o cheiro do pinhal, depois seguir em frente, subindo um pouco a serra até chegar a Almoçageme. Uma viagem curta, mas cheia de recordações. Ir à praia das maçãs uma vez por ano, sentir a maresia junto às arribas, almoçar junto à praia e depois mergulhar os pés no areal, relembrando o passado é um ménu que desta vez não aconteceu, estive ali bem perto, mas o destino era outro. Fiquei com água na boca, mas neste verão matarei a minha sede.
sábado, 5 de maio de 2012
CUIMBA
Foi aqui nesta pequena aldeola que
vivemos ano e meio. Um aquartelamento sem grades, sem redes, sem
fronteiras. Três ou quatro casas coloniais, uns quantos barracões de
chapa zincada e o capim por vedação. O mato por ali era mato. Ao longe a
serra da Canda como cenário. A avenida da Liberdade atravessava o
aquartelamento, com o seu pavimento de areia avermelhada, começando no
términus da picada que vinha de S.Salvador e terminando na picada que
seguia para Coma e Luvaca, poisos dos aquartelamentos que albergavam
outros militares, outras companhias. Mais tarde o nosso batalhão
construiu um aldeamento para os nativos. Hoje Cuimba está diferente, é
uma vila com milhares de habitantes, vindos do Congo e de outra regiões,
fugidos da guerra fraticida que se estabeleceu. Aquelas casas coloniais
estão hoje destruídas e milhares de cubatas invadiram Cuimba. Espero
publicar em breve imagens do google terra que permitem ver a realidade
desta terra do norte de Angola.
CUIMBA
Recordar Cuimba é recordar "a viagem" ! A partida de Lisboa, o barco, o oceano, a chegada a Luanda, o Grafanil, as berliets e o desbravar das picadas a transbordar de capim. É recordar Ambriz, Ambrizete, Tomboco e São salvador.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
FEIRA DA LADRA
Hoje
fui à feira da ladra! há quanto tempo não percorria os caminhos que vão
dar a esta tradicional feira lisboeta. As ruas pejadas de gente, os
feirantes espalhados por todos os espaços imaginários, as bancadas com
todas as "velharias" desordenadas pelas bancas, o chão de lençóis
atapetado, cobertos de artigos novos e velhos, são o chamariz para quem
procura a "tal" peça a preços irrisórios. A feira da ladra continua
igual a si mesma. Notting hill é uma feira em Londres mas de uma só rua.
A feira da ladra é uma feira de todos os espaços. Inigualável!
Feira da Ladra |
CRÓNICAS DE VIAGENS
Ao escrever alguns textos sobre as minhas viagens e mostrar fotos dos locais por onde passei, não o farei por alguma ordem, tanto falarei de deslocações recentes como das mais remotas. Não estranhem por isso que vá da Praia das Maçãs, a Angola ou de Sesimbra a Marrocos. Viajei muito pouco, muito por culpa do meu "não gostar de aviões" mas ainda assim conheço muita vila e cidade bem como alguns países.
Ao escrever alguns textos sobre as minhas viagens e mostrar fotos dos locais por onde passei, não o farei por alguma ordem, tanto falarei de deslocações recentes como das mais remotas. Não estranhem por isso que vá da Praia das Maçãs, a Angola ou de Sesimbra a Marrocos. Viajei muito pouco, muito por culpa do meu "não gostar de aviões" mas ainda assim conheço muita vila e cidade bem como alguns países.
terça-feira, 1 de maio de 2012
LISBOA-1
Das muralhas junto ao rio da vila do Seixal, bem pertinho da escola, via-se ao longe a silhueta da capital. Lisboa era um sonho, como seria? teria muitas casas? e as ruas, eram muitas? Não tinha imaginação para tanto. Mas o sonho realizou-se, e esta foto, onde estão o meu tio, o meu irmão Carlos Alberto, eu e o meu pai, regista o evento. Em que ano, aonde, e porquê, já não sei. Talvez a Belém ver o Belenenses, clube a que meu tio e meu pai eram associados e onde eu mais tarde fui várias vezes ver o célebre Matateu e companhia ao velhinho campo das Salésias e depois ao novo estádio do Restelo.
domingo, 29 de abril de 2012
PRIMEIRA VIAGEM
Viver num bairro, duma vila encostada ao Tejo, a 15 quilómetros de Lisboa e praticamente com duas ruas não foi fácil. Da janela do meu quarto, virada para a rua de baixo, com os joelhos em cima de um banco, via o movimento da rua: muitos operários com as suas lancheiras, caminhando apressados ao toque da sirene para não chegarem atrasados; dois ou três automóveis em velocidades reduzidas e as camionetas da carreira que passavam de vez em quando. O meu mundo era aquele, pouco mais conhecia e sonhava com outro mundo: para onde iam os automóveis? e a camioneta que destino teria? Aos sete anos, o meu mundo era aquele, a rua de baixo, a rua de cima e o campo da bola onde ia aos domingos ver os jogos de futebol da equipa da terra. Aos sete anos o sonho começou a tornar-se realidade. Rosalina, a mãe, veste-me a bata branca, coloca-me uma sacola numa mão e pegando-me na outra leva-me rua abaixo até à vila. Era Outubro, inicio da escola, início duma era nova. Junto à escola, Rosalina disse-me apenas: logo à tarde quanto acabar a aula, voltas para casa pelo mesmo caminho. Fiquei ali, parado olhando esse mundo novo: mais ruas, mais gente, um rio ali tão perto, e Lisboa ao longe envolto em neblina. Uma viagem de algumas centenas de metros, do bairro à vila; uma escola, dezenas de outras crianças, todo um mundo novo girando à minha volta. Uma viagem, a primeira, a pé, com ida e volta, por outros caminhos que não conhecia, deixando-me na boca a água a crescer: e aquele mundo mais além, envolto em neblina como seria?
sábado, 28 de abril de 2012
NASCER HOJE
Fazer nascer hoje aqui e agora um percurso de 68 anos. Nascer no outro lado do rio e partir numa viagem tão curta até à cidade da Amadora e pelo caminho percorrer pedaços do mundo, conhecer outras terras, outras gentes, não tantas como desejaria, mas o suficiente para poder dizer: viajei!
Fazer nascer hoje aqui e agora um percurso de 68 anos. Nascer no outro lado do rio e partir numa viagem tão curta até à cidade da Amadora e pelo caminho percorrer pedaços do mundo, conhecer outras terras, outras gentes, não tantas como desejaria, mas o suficiente para poder dizer: viajei!
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