Quando era miúdo adorava ir à Praia das Maçâs passar férias. Não era
apenas aquele riacho que serpenteava pelas areias formando pequenas
enseadas e desaguando depois no mar; nem o homem das bolas de Berlim,
gritadas areal fora; nem sequer o pinhal que fronteava a casa das
minhas tias, pleno de pinhões e camarinhas que faziam as nossas
delícias. Era sobretudo o quarto do meu primo Zeca, recheado de
surpresas, que ele, muito mais velho que eu, fazia saltar das gavetas.
Eram recordações da meninice dele, jogos, brinquedos, bonecos de todas
as cores e feitios, que ele me oferecia e eu delirava. Hoje, sou, não um
coleccionador, mas um juntador de coisas pensando que um dia mais
tarde, filhos ou netos, encontrem numa gaveta, numa caixa ou num canto
qualquer, alguma coisa que os encante. Com as obras que tenho feito em
casa, o espaço para as colecções não sobra, nem sequer para o amontoado
de coisas que vou juntando. Assim, tudo tem sido transferido para o
atelier de pintura, em caixas, em malas, em sacos. Por acaso hoje fui a
um desses sacos procurar um cabide e encontrei uma lata que em tempos
deve ter servido para acondicionar rebuçados e qual não foi o meu
espanto quando descobri que estava cheia de legos. Peças de várias
engenhocas, peças de um tempo que o João Pedro, meu filho,viveu quando
criança. Como me ia encontrar com a Matilde, minha neta, resolvi levar a
lata para lhe mostar. À noite, antes do jantar, despejei ao conteúdo da
lata no chão e foi com alguma emoção que vi o João e a Matilde a a
desbravar as peças e a tentar encaixá-las. Da cena, apenas duas notas
quero realçar, a primeira da Matilde, que virando-se para o tio lhe
pergunta «tio João ofereces-me os legos, está bem ?» e do João que
virando-se para mim, pediu «passa-me aí essa peça, que se bem me lembro
tem um perno partido» . Passaram-se mais de vinte anos, a peça continua
partida, o nosso imaginário continua vivo, a geração Matilde agradece.
As minhas caixas continuam no atelier, cheias de coisas velhas, que um
dia os filhos e netos desbravarão.
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