domingo, 29 de abril de 2012

PRIMEIRA VIAGEM






Viver num bairro, duma vila encostada ao Tejo, a 15 quilómetros de Lisboa e praticamente com duas ruas não foi fácil. Da janela do meu quarto, virada para a rua de baixo, com os joelhos em cima de um banco, via o movimento da rua: muitos operários com as suas lancheiras, caminhando apressados ao toque da sirene para não chegarem atrasados; dois ou três automóveis em velocidades reduzidas e as camionetas da carreira que passavam de vez em quando. O meu mundo era aquele, pouco mais conhecia e sonhava com outro mundo: para onde iam os automóveis? e a camioneta que destino teria? Aos sete anos, o meu mundo era aquele, a rua de baixo, a rua de cima e o campo da bola onde ia aos domingos ver os jogos de futebol da equipa da terra. Aos sete anos o sonho começou a tornar-se realidade. Rosalina, a mãe, veste-me a bata branca, coloca-me uma sacola numa mão e pegando-me na outra leva-me rua abaixo até à vila. Era Outubro, inicio da escola, início duma era nova. Junto à escola, Rosalina disse-me apenas: logo à tarde quanto acabar a aula, voltas para casa pelo mesmo caminho. Fiquei ali, parado olhando esse mundo novo: mais ruas, mais gente, um rio ali tão perto, e Lisboa ao longe envolto em neblina.  Uma viagem de algumas centenas de metros, do bairro à vila; uma escola, dezenas de outras crianças, todo um mundo novo girando à minha volta. Uma viagem, a primeira, a pé, com ida e volta, por outros caminhos que não conhecia, deixando-me na boca a água a crescer: e aquele mundo mais além, envolto em neblina como seria?

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